Ação escancara a crueldade deste tipo de crime, afirma a Polícia Civil
A Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Canoas desencadeou nesta sexta-feira, 29, a Operação Vozes da Inocência, com o objetivo de prender indivíduos suspeitos de praticar crimes de natureza sexual contra crianças e adolescentes. Os indivíduos são responsáveis pelos menores, como avós, padrastos e pais. A relação de confiança violada silenciou as vítimas por longo período de tempo em que foram submetidas a diversos abusos dentro de casa.
A ação, que mobilizou 30 policiais civis, resultou no cumprimento de cinco mandados de prisão preventiva e seis mandados de busca e apreensão em diferentes pontos de Canoas.
A operação, liderada pelo Delegado Maurício Barison, também busca trazer luz à importância das palavras das vítimas, muitas vezes desacreditadas ou minimizadas, até mesmo dentro do ambiente familiar. Segundo ele: “a operação de hoje, além de dar cumprimento à justiça, simboliza o respeito e a valorização do depoimento dessas crianças e adolescentes, que, mesmo fragilizadas, tiveram coragem de romper o silêncio”, destaca.
Casos chocantes
Entre os casos investigados na operação, destacam-se histórias que ilustram tanto a coragem das vítimas quanto a gravidade das violações.
Caso 1 – Avô abusa de neta e de amiga da neta como “namoradas”
Um homem de 78 anos era suspeito de estuprar sua própria neta (de 14 anos) e uma amiga dela (de 12 anos). Os crimes aconteceram durante meses, enquanto ele ludibriava a família para receber acolhida após a enchente que assolou a cidade de Canoas, em 2024. Não satisfeito em abusar das meninas dentro da casa onde era hóspede, o idoso ainda as levava a um bar, onde referia-se a ambas como suas “namoradas”. Com medo e pressionadas por ameaças, as jovens permaneceram em silêncio até encontrarem coragem para denunciar à equipe escolar, que acionou a Polícia Civil. Prisão preventiva decretada.
Caso 2 – Padrasto chantageia enteadas com brincadeiras e cartão de crédito
Outro caso envolveu um padrasto de 42 anos, que manipulava e abusava sexualmente das enteadas de 12 e 14 anos no próprio lar, quando ficavam sem a presença da mãe. De forma vil, mascarava os crimes como “brincadeiras” de cosquinhas e massagens forçadas. Em uma tentativa doentia de se aproximar, chantageava as meninas, oferecendo o cartão de crédito para que realizassem os atos.
Graças à denúncia da avó materna das meninas, a polícia deu início às investigações que resultaram em mandado de prisão preventiva.
Caso 3 – Avô pratica abusos por mais de 4 anos
Um homem de 71 anos, após sofrer um acidente vascular cerebral, passou a residir com o filho, local onde abusou da própria neta durante anos (dos 7 aos 11 anos). Sob o pretexto de buscar assistência, ele invadiu a infância da menina com beijos, carícias e, por fim, conjunção carnal. Estes abusos levaram a vítima à perda da virgindade e a marcas irreversíveis. Somente na adolescência, após enfrentar dificuldades afetivas, a vítima conseguiu relatar os abusos, iniciando a busca por justiça contra o próprio avô. Prisão preventiva decretada.
Caso 4 – Pai abusa sexualmente da filha, que recorre à automutilação
A operação investigou também um caso no qual o pai biológico, de 41 anos, abusava sexualmente da própria filha de 12 anos. A dor e o silêncio levaram a vítima a um estado de sofrimento tão extremo que ela começou a se automutilar. Com o apoio de uma meia-irmã, que também havia sido vítima do agressor, a denúncia finalmente chegou à Polícia Civil.
“Os efeitos psicológicos e sociais de crimes como este são devastadores. Não permitiremos que esses monstros sigam dilacerando vidas”, destaca o Delegado Barison.
Caso 5 – “Tio” abusava dentro de casa se aproveitando da confiança da família
Crime ocorrido na cidade de Canoas, em 2024, no bairro Harmonia. Indivíduo, de 51 anos, abusava sexualmente da vítima de 10 anos de idade, sobrinha de sua companheira. O crime foi flagrado pela irmã adolescente, que visualizou o indivíduo praticando o abuso contra a criança. O indivíduo é natural do Estado do Rio de Janeiro e, durante as investigações, fugiu para a cidade de Duque de Caxias/RJ. Diligências seguem para busca e prisão do abusador.
Negligência da sociedade potencializa os traumas
Os casos descritos expõem como as vítimas enfrentam uma dobradinha desumana de violência e indiferença. Profundamente impactadas física e emocionalmente, testemunham a omissão de familiares e até ameaças, como no caso da avó que se negou a ouvir os relatos. Essa negação faz com que crianças, além de lutarem com os traumas, convivam com um sentimento generalizado de abandono.
Efeitos dos crimes nas vítimas
O Diretor da 2ª Delegacia Regional Metropolitana (2ª DPRM), Delegado Cristiano Reschke, reafirmou o compromisso da polícia na proteção das crianças e adolescentes:
“A operação de hoje libertou 7 vítimas do que considero uma espécie de cárcere psicológico, com danos que acompanharão suas vidas. Essas crianças e adolescentes tiveram suas vozes sequestradas quando sofreram violências sexuais dentro de casa por parte de homens que deveriam, por compromisso legal e moral, justamente protege-las. Hoje a voz delas ecoou e resultou na prisão desses verdadeiros monstros, rompendo ciclo de abusos e isso, com certeza, fará com outros adultos percebam sinais de violência e denunciem.”