Ex-vice-presidente de Relações de Trabalho do Simecs, José Paulo Medeiros fala sobre falta de mão de obra, uso de tecnologia e perspectivas econômicas
O diretor executivo da Tramontina Cutelaria, José Paulo Medeiros, avaliou os principais desafios enfrentados atualmente pela indústria brasileira em entrevista à Spaço FM, com destaque para a escassez de mão de obra, a qualificação de novos trabalhadores e as perspectivas econômicas para 2026. A conversa também abordou os investimentos da Tramontina e o debate nacional sobre a possível extinção da escala 6×1.
Medeiros encerrou recentemente um ciclo de 15 anos de atuação no Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul e Região (Simecs), sendo os últimos anos como vice-presidente de Relações de Trabalho, durante a gestão 2023–2025.
Falta de mão de obra é desafio estrutural
Segundo o executivo, a dificuldade em atrair trabalhadores não é exclusiva da indústria, mas afeta todo o mercado. Ainda assim, o setor industrial sente de forma mais intensa os impactos da redução no número de jovens disponíveis para ingressar no mercado de trabalho.
“Hoje as famílias têm um, dois filhos. Era comum famílias com oito ou dez irmãos. Isso gera uma escassez de mão de obra que não está só na indústria, mas também no comércio e nos serviços”, explica.
Escola do Amanhã aproxima jovens da indústria
Uma das principais iniciativas citadas por Medeiros é o projeto Escola do Amanhã, desenvolvido pelo Simecs em parceria com o Sesi e o Senai. A proposta é aproximar jovens da realidade industrial ainda no contraturno escolar, por meio de atividades pedagógicas e lúdicas.
O projeto teve início como piloto em 2024, foi consolidado em 2025 em Caxias do Sul e, em 2026, deve ser expandido para outros municípios da região.
“A ideia é cativar o jovem antes mesmo do Senai, mostrando que a indústria é uma opção de carreira profissional”, afirma.
Ao completar 15 anos, os participantes podem ingressar no Senai, onde realizam cursos de um ano e meio a dois anos, saindo preparados para atuar diretamente nas indústrias.
Mudança de imagem do trabalho industrial
Medeiros ressalta que muitos jovens ainda têm uma visão distorcida do ambiente industrial, associando o trabalho a atividades pesadas e insalubres.
“Essa realidade mudou completamente. Hoje, quando o jovem conhece a indústria moderna, com tecnologia e automação, ele passa a enxergar a empresa como um ambiente atrativo para desenvolver a sua carreira.”
Tecnologia e produtividade como caminho
Para enfrentar a escassez de mão de obra e manter a competitividade global, empresas como Tramontina, Marcopolo, Randon e outras da região têm investido fortemente em automação, inovação e inteligência artificial.
“Competimos com empresas do mundo inteiro, especialmente chinesas e indianas, que ainda têm mão de obra muito barata. Precisamos ter qualidade igual ou superior, com custos competitivos, e isso só é possível com tecnologia e profissionais qualificados”, destaca.
Debate sobre o fim da escala 6×1
Sobre a possível extinção da escala 6×1, Medeiros afirma que o tema é antigo e vem sendo discutido em âmbito nacional. Segundo ele, a negociação está sendo conduzida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com apoio das federações estaduais.
“O objetivo é buscar um ponto de equilíbrio que permita a manutenção dos empregos e das empresas. É um tema complexo e de abrangência nacional”, avalia.
Economia em 2026 será desafiadora
Na avaliação do executivo, 2026 será um ano desafiador para a economia brasileira, marcado por eleições e pela Copa do Mundo, fatores que impactam diretamente o comportamento do mercado.
“As empresas, o comércio e os serviços terão que se reinventar para manter empregos e ajudar a economia a voltar a crescer em nível municipal, estadual e nacional.”
Tramontina mantém otimismo e prevê investimentos
Apesar do cenário desafiador, Medeiros afirma que a Tramontina mantém uma visão otimista para o futuro. Segundo ele, a empresa já estruturou seu planejamento estratégico com foco em crescimento e expansão.
“Temos investimentos previstos em ampliação e melhoria dos nossos parques fabris, para atender às demandas do mercado e continuar buscando novos mercados no mundo”, conclui.
