Executivo também ressalta que fim da escala “6×1” vai aumentar custos na vida do trabalhador
O diretor de Relações Institucionais da Marcopolo, Ruben Antônio Bisi, afirmou que o Brasil enfrenta um conjunto de problemas estruturais que comprometem a competitividade da indústria, o equilíbrio fiscal e o futuro do mercado de trabalho.
A avaliação foi feita durante entrevista ao Fim de Expediente, da Spaço FM. Bisi também é integrante do Conselho de Diretoria do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico (Simecs).
Segundo o executivo, a escassez de mão de obra é generalizada e atinge todos os setores da economia. Ele destacou que, apenas nos últimos dois anos, houve milhares de vagas abertas na região de Caxias do Sul e que o problema se repete em todo o país. Para Bisi, parte desse cenário está relacionada ao aumento do assistencialismo e à permanência de milhões de pessoas fora do mercado formal de trabalho.
Outro ponto central da análise foi a crítica ao modelo de assistencialismo. Bisi afirmou que programas como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) consomem mais de R$ 270 bilhões por ano e, na sua visão, acabam perpetuando a pobreza ao invés de promover inclusão produtiva.
“Eu acho que o Brasil precisa tirar essas pessoas do assistencialismo. Esses aí estão condenados a viver numa pobreza eterna. Com R$ 600 reais, mais R$ 200, mais tal, é R$ 1.500 por mês no máximo. Com vale gás, o vale transporte, a energia, etc. Isso não é vida. Nós temos que dar um emprego digno para os trabalhadores. Então tem que ter um plano. A gente já pensou, dentro do Sistema S, de dar um curso profissionalizante para esses que têm o Bolsa Família e eles terem um trabalho com carteira assinada. Nós estamos em um populismo, porque quem ganha Bolsa Família fica ‘funcionário’ do governo. Então nós temos que trabalhar é para que essas pessoas voltem para o mercado de trabalho”, destaca Bisi
Classe trabalhadora vai sofrer no bolso com o fim da escala “6×1”
Bisi criticou duramente a pauta da redução da jornada semanal de trabalho, conhecida como “6×1”, que vem ganhando força no Congresso Nacional. De acordo com ele, apesar do apelo popular, a medida tende a gerar aumento de custos, inflação e perda de competitividade internacional. Na avaliação do executivo, a redução das horas trabalhadas não será absorvida pelo empresariado, mas repassada aos preços finais dos produtos, impactando diretamente o consumidor.
“E nessa questão do 6×1, ninguém está se dando a conta que quem vai pagar esses valores será a própria classe trabalhadora. Por que? O empresário não sofre. Ele sofre momentaneamente, mas ele vai transferir para os preços. Tudo vai ser transferido para os preços. Se eu tenho uma linha de produção dimensionada para produzir X peças por minuto e eu diminuo essa quantidade de minutos, toda aquele depreciação vai aumentar o preço do produto. E como aumenta o preço do produto, vai cair na mão de quem? De quem compra lá no final. Então essa pauta eleitoreira de reduzir a carga de horas por semana, número de horas por semana, vai aumentar a inflação, vai aumentar os custos do Brasil e vai diminuir a competitividade do Brasil perante os outros países”, reforça.
Ao comparar o Brasil com outros países, Bisi afirmou que o país ainda não reduziu o chamado “custo Brasil” a ponto de permitir diminuição da jornada sem prejuízos à produtividade. Ele citou que na China e em países vizinhos, como o Paraguai, a carga horária é superior à brasileira, o que amplia a competitividade desses mercados frente à indústria nacional.
O diretor da Marcopolo também alertou para o que chamou de “desindustrialização silenciosa”, impulsionada pelo aumento das importações, especialmente da China. Segundo ele, setores como máquinas agrícolas, veículos, ônibus, caminhões e ferramentaria já sofrem com a concorrência externa, fenômeno que tende a se intensificar caso os custos de produção no Brasil continuem a subir.
O alerta para o endividamento das famílias
O executivo também demonstrou preocupação com o alto índice de informalidade, que atinge cerca de 35% da força de trabalho, e com os impactos futuros na Previdência Social. Ele destacou que trabalhadores informais e por aplicativos, que não contribuem regularmente, poderão gerar um déficit ainda maior no sistema previdenciário nos próximos anos.
Bisi chamou atenção ainda para o elevado endividamento das famílias brasileiras, estimado em cerca de R$ 495 bilhões, impulsionado principalmente por crédito consignado e apostas on-line. Segundo ele, esse cenário já afeta empresas industriais, que registram percentuais significativos de funcionários endividados, muitos deles incapazes de honrar compromissos financeiros.
Por fim, o conselheiro da Simecs criticou o tamanho do Estado brasileiro e o crescimento dos gastos públicos nas três esferas de poder. Apesar dos recordes de arrecadação, Bisi afirmou que o país segue acumulando déficits e alertou para uma situação fiscal crítica a partir de 2027, com aumento de precatórios e dívidas. Para ele, sem reformas estruturais e redução do tamanho do Estado, o Brasil caminha para uma crise fiscal de grandes proporções.
